Conheça a história do Movimento GBM – VOZES DE AÇÃO EM DEFESA DA VIDA NASCENTE.(O Movimento mais antigo do Brasil, que enfrentou o PT).

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Mais folhetos anti-PT têm até lista de candidatos vetados…É a politica baixaria de José Serra

Mesmo com o pedido de busca e apreensão dos panfletos impressos na Editora Gráfica Pana contra a candidata à Presidência Dilma Rousseff (PT), as igrejas da diocese de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, estão apinhadas de materiais gráficos que fazem referência negativa à petista. A cidade de Guarulhos é a região episcopal presidida pelo bispo católico Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, que teria encomendado os 2 milhões de panfletos apreendidos no último domingo pela Polícia Federal na gráfica do bairro do Cambuci, em São Paulo.
Em pelo menos três igrejas da região (São Geraldo, Santo Antonio e Santa Luzia), a reportagem do ig  encontrou publicações que fazem a relação do PT e de sua candidata com a defesa do aborto. Uma das publicações, datada de setembro de 2010, antes do primeiro turno, afirma que o PT teria expulsado de seus quadros parlamentares que eram contra a descriminalização do aborto – a sigla suspendeu integrantes que manifestavam posições radicais contra a descriminalização eque acabaram deixando a sigla, entre eles Luiz Bassuma, hoje no PV. A publicação pede para que os fiéis católicos “reavaliem sua opinião em relação ao partido”.
A publicação traz uma lista de candidatos a deputado que supostamente seriam a favor da descriminalização do aborto, sugerindo que os católicos não dessem seu voto a eles. Na maioria são nomes do PT e do PCdoB, como Paulo Teixeira, José Mentor, Jilmar Tatto e Vanessa Grazziotin. Há Também nomes do PSOL, do PV e também do PDT, como Paulo Pereira da Silva, Fernando Gabeira e Chico Alencar.
A publicação recebe o nome de “Jornal Em Defesa da Vida” e é coordenadora por um grupo de Santa Catarina chamado “Movimento Gianna Beretta Molla”, nome de uma santa católica italiana. O grupo religioso é coordenador por Sabino Werlich. Ele afirma que nos últimos meses imprimiu mais de 300 mil exemplares do jornal, que foram distribuídos para mais de 4 mil paróquias de todo o Brasil.
Segundo Werlich, o jornal é financiado por “gente da comunidade” e pela venda de produtos naturais produzidos pelo grupo, como pomadas e remédios naturais, que recebem o nome de “erval da divina misericórdia”. No impresso há um enorme artigo destacando a posição “a favor da vida” do candidato José Serra (PSDB).
No impresso distribuído nas igrejas de Guarulhos, o leitor encontra um telefone onde pode adquirir DVDs que orientam contra a prática do aborto. O material é enviado pelo correio para a casa dos fiéis.
As paróquias de Guarulhos também distribuem um jornal oficial da Diocese da cidade onde o próprio Dom Luiz Gonzaga Bergonzini escreve um artigo pedindo o voto contra Dilma Rousseff (PT). O jornal de nome “Folha Diocesana” seria pago pela igreja e foi encontrado nas três paróquias visitadas pelo iG.
Bairro Ponte Grande
Durante a visita à Paróquia São Geraldo, no bairro Ponte Grande, o iG também flagrou um seminarista que mora na igreja com um exemplar do panfleto apreendido pela Polícia Federal no último sábado em uma gráfica de São Paulo. Questionado sobre o material, o seminarista que não quis se identificar disse que o folheto está sendo distribuído no Seminário São Caetano, mantido pela Diocese de Guarulhos.
O padre José Francisco Antunes, pároco da São Geraldo, confirmou que as paróquias da região receberam uma leva do folheto com assinatura da CNBB há cerca de 20 dias. Ele disse que não chegou a ver o material, mas afirmou que considera “normal” a distribuição de material político na igreja que oriente os fiéis. “O material tem a assinatura dos bispos da região. É o posicionamento deles. A Igreja pode e deve orientar seus fiéis sobre quem são os candidatos que são a favor da vida”, disse o padre Francisco. Ele também confirmou que costuma fazer sermões nas missas orientando os fiéis sobre política e eleição, embora diga nunca tenha feito nenhuma menção à Dilma ou Serra em suas pregações.
“O código da igreja nos proíbe falar o nome de qualquer candidato. Oriente apenas sobre a atenção que eles devem dar para os candidatos que são contra a violência do aborto”, argumento. O padre Francisco diz que, pessoalmente, não vê diferenças entre Dilma Rousseff e José Serra. “Eles têm a mesma posição
sobre o aborto. Cabe aos fiéis escolherem entre um e outro, de acordo com o que cada um sente sobre quem é realmente comprometido com as causas da igreja”, afirmou. O padre nega que essas pregações sejam orientações do bispo diocesano, dom Luiz Gonzaga Bergonzini.
Diocese de Guarulhos
Apesar da posição do padre, em vários pontos da paróquia é possível encontrar folhetos impressos em papel sulfite com o mesmo texto de alerta aos cidadãos contra o Partido dos Trabalhadores. Os impressos contêm o mesmo “Apelo a todos os brasileiros e brasileiras” contido nos panfletos apreendidos pela PF na gráfica do Cambuci.
A mesma paróquia distribuía aos fiéis vários exemplares do “Jornal em Defesa da Vida” e da “Folha Diocesana”, que pregam voto contra Dilma. “São materiais legítimos, as vezes vindo da própria Diocese, que continuaremos distribuindo. Não vejo problema nenhum em fazer isso”, afirmou padre Francisco.
A reportagem do iG procurou o bispo Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, mas desde sábado ele não aparece na diocese, segundo os funcionários. Ele não foi encontrado em sua casa, nem no seminário de Guarulhos. Os funcionários não sabiam do paradeiro do bispo.Com informações do IG

Vida, Contracepção e Aborto em notícia.
Grande parte dos valores atribuídos à concepção associados a noção de “vida” estão estreitamente ligados a opção religiosa. Neste campo, as religiões cristãs exercem grande influência, principalmente a Igreja Católica, que auferiu para si a regulação da moralidade, através do monopólio da ética, na medida em que impõem seus valores religiosos como dogmas que não são apenas católicos, mas se configuram também como dogmas socais. Os preceitos cristãos definem a “vida” pela existência de uma alma, e como tal, toda manifestação de vida é inviolável, articulando assim, uma série de argumentações voltadas para a preservação da vida humana.
O argumento de defesa incondicional da vida, apropriado e utilizado pela Igreja Católica está imbricado a uma série de outros discursos que se relacionam de forma muito direta, fazendo emergir uma nova cultura da vida humana. De acordo com o Papa João Paulo II, a comunidade católica tem o “dever fundamental de respeitar o direito à vida desde a concepção até a morte natural”. Para a insituição essa temática é tratada de forma incisiva, como afirma-se em discurso oficial comemorativo aos cinco anos da encíclica Evangelium Vitae, (NUNES, 1997:420):
Existe outra área de defesa da vida em que a comunidade crente deve intervir: é o campo da pastoral e da educação que a quarta parte da Encíclica foca, apresentando linhas concretas de actuação para a construção de uma nova cultura da vida. Nos últimos cinco anos as Dioceses e os párocos começaram muitos projectos mas ainda há muito por fazer. Um autêntico apostolado da vida não pode ser simplesmente deixado a movimentos específicos que trabalhem na área social, por mais dedicados que sejam. […]Isto requer, primeiro, que as pessoas empenhadas sejam preparadas em seminários e institutos teológicos; requer também o ensino correcto e consistente dos valores morais nas várias formas de catequese e de formação da
1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade do Federal de Santa Catarina, com o projeto intitulado: “Católicas online: Vozes dissonantes através dos discursos católicos sobre o aborto.” (1993 a 2009).
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consciência; finalmente, deve ser posto em prática com a oferta de serviços de apoio que permitam a qualquer pessoa com problemas encontrar ajuda. Através da acção educativa conjunta das famílias e das escolas, devem ser feitos esforços para que estes serviços sejam um “sinal” e uma mensagem. Tal como a comunidade precisa de locais de culto, devia também sentir a necessidade de organizar, especialmente a nível diocesano, serviços de educação e apoio à vida humana, serviços que sejam o fruto da caridade e um sinal de vitalidade. A mudança das leis tem que ser precedida e acompanhada por uma mudança de mentalidades e de moral em vasta escala, de forma abrangente e visível. Nesta matéria a Igreja não poupará esforços nem aceitará a negligência ou a omissão2.
Percebe- se que a idealização da família cristã, a normatização do corpo e das práticas sexuais, a determinação de funções para as mulheres dentro do matrimônio e da constituição familiar, a busca pela intensificação do fortalecimento moralidade cristã, o forte apelo a sentimentos de culpa, à fé católica e aos critérios morais da cristandade, são fatores que formam conjuntos discursivos, compondo toda uma configuração em torno do que podemos chamar de pedagogia de defesa da vida (NUNES, 1993).
Nas páginas do Jornal da Arquidiocese3, a temática do aborto e as questões relacionadas a ele são tratadas como demanda quase que exclusiva das mulheres e dos governos favoráveis a sua prática ou abertos ao diálogo. Pela lógica cristã católica, mesmo sendo responsável pelo feto, pela “vida” que está a gerir, a mulher não é portadora de direitos que lhe concedam autoridade para decidir sobre levar adiante uma gestação indesejada. Para os fiéis católicos o aborto provocado é um pecado grave por ser uma violação direta do 5º mandamento bíblico, “não matarás”, e continua sendo considerado mesmo quando legalmente permitido. Para estes, esse mandamento limita-se a exprimir um valor da lei natural, fundamento do que seria determinante de uma
2 Discurso do Papa João Paulo II em Comemoração do Quinto Aniversário da Encíclica “Evangelium Vitae”, em Roma, 14 de Fevereiro de 2000. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/2000/jan-mar/documents/hf_jp-ii_spe_20000214_acd-life_po.html – Acesso em 15 dez.2010.
3 O Jornal da Arquidiocese começou a ser publicado em 1996, por iniciativa do arcebispo da capital florianopolitana na época, Dom Eusébio Oscar Scheid, com o intuito de estreitar os canais de comunicação entre a arquidiocese de Florianópolis e suas paróquias, com as demais dioceses do estado de Santa Catarina, os fiéis católicos e o público leigo. A edição de lançamento do jornal foi em 1° de outubro de 1996, permanecendo com distribuição mensal e gratuita.
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“ética universal”, logo, o aborto não é tido como uma questão exclusivamente da moral religiosa: sua prática agride valores universais de respeito pela vida.
[…] O aborto não é um direito da mulher. Ninguém tem direito de decidir se um ser humano vive ou não vive, mesmo que seja a mãe que o acolheu no seu ventre. A mulher tem o direito de decidir se concebe ou não. Mas desde que uma vida foi gerada no seu seio, é outro ser humano, em relação ao qual tem particular obrigação de o proteger e defender. O aborto não é uma questão política, mas de direitos fundamentais. O respeito pela vida é o principal fundamento da ética, e está profundamente impresso na nossa cultura. É função das leis promoverem a prática desse respeito pela vida. A lei sobre a qual os portugueses vão ser consultados em referendo, a ser aprovada, significa a degenerescência da própria lei. Seria mais um caso em que aquilo que é legal não é moral[…]4
Sobre a parcialidade e envolvimento de países como os Estados Unidos, que possuem legislação referente à legalização do aborto mesmo que de forma parcial, extrai-se a seguinte notícia, que relaciona a questão populacional com a falta desenvolvimento, com a questão da migração, da marginalização, com o aumento da criminalidade e o desenvolvimento das práticas contraceptivas e abortivas para embasar o discurso de defesa da vida em sua primeira nota direta sobre o tema, incluído em uma série de discussões com a chamada de capa intitulada “Só a família salva”, onde alguns pontos referentes à família foram tratados. A associação entre migrantes ilegais e marginalidade é um artifício que criminaliza a luta pelos direitos sexuais e reprodutivos, pois é sabido que tanto a imigração quanto a criminalidade são frutos de processos sociais distintos, e dessa maneira a prática do aborto passa a ser criminalizado mesmo nos contextos em que é considerado legal juridicamente.
Os Estados Unidos apóiam os Parlamentos latino-americanos a votarem leis a favor do aborto porque “não querem mais imigrantes nem traficantes”, continuou o presidente do Conselho Episcopal Latino Americano (CELAM): “Os EUA querem que a América Latina pare de produzir imigrantes ilegais e traficantes
4 Razões para escolher a vida. Nota Pastoral do Conselho Permanente Conferência Episcopal Portuguesa sobre o referendo ao aborto. Fonte: Ecclesia, 19 de Outubro de 2006. Disponível em: http://www.juntospelavida.org/noticias/061019.htm – Acesso em 16 dez. 2010.
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de drogas. Eles partem de um engano ao considerar que somos subdesenvolvidos porque somos populosos”, disse aos jornalistas. Sobre o aborto: “a Igreja Católica não pode ser flexível neste ponto, visto que é um assassinato e que nada tem a ver com a cultura dos latino-americanos, mas sim com a política dos países desenvolvidos”, acrescentou. O arcebispo também condenou o uso de preservativos e desqualificou o argumento de que isso iria evitar a propagação da AIDS: “Nunca se distribuiu tantos preservativos como agora e ao mesmo tempo não se conseguiu reverter o avanço da doença. Para deter esta epidemia é necessário que as pessoas mudem a conduta”, enfatizou [grifo meu]. Para ele, estes são assuntos que. “além da miséria, do neoliberalismo, economicismo, individualismo e as seitas, preocupam o Celam”, bem como “a falta de sacerdotes no continente ”5.
Nessa mesma linha, são publicadas notas que vinculam a compaixão, o amor materno as populações socialmente desfavorecidas, em contraponto à lógica que seria imbuída pelas camadas médias ocidentais. Na coluna Retalhos do Cotidiano essa ação é ainda mais presente, com a publicação de pensamentos de figuras consideradas exemplos de santidade pela Igreja, a exemplo da nota abaixo, atribuída a Madre Tereza de Calcutá, ou por recorrer ao dom divino da maternidade, à importância da vida, á consciência moral do humano, com fortes apelos visuais: “Ainda não encontrei nenhuma mulher pobre que estivesse disposta a abortar. Dará a luz, sem dúvida. É possível que, logo a seguir, abandone a criatura, mas não será ela a cercear a vida do filho. Isto temos de aprender com os pobres: a grandeza de seu amor pelos filhos6”. Entende-se esse argumento como uma contradição, pois a mulher deve ter seu filho, pode abandoná-lo, mas jamais fazer um aborto, o que parece demonstrar certa incoerência dentre o discurso da oficialidade católica e o entendimentos de outras parcelas da organização da igreja.
5 Só a família salva. Presidente do CELAM acusa E.U.A de apoiar leis abortistas. Jornal da Arquidiocese, Florianópolis, Novembro/1997, ano II, ed.14 p.05.
CELAM – Conselho Episcopal Latino Americano.
6 MARTENDAL, Carlos. Aborto. Coluna Retalhos do Cotidiano. Jornal da Arquidiocese, Florianópolis. Outubro/1997, ano II, ed.12 p.14.
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Observe com atenção esta criança nascida prematuramente. Parece que a ela, especialmente a ela, diz o Senhor: “Eis que estás gravada nas palmas de minhas mãos (Is 49,16). Vendo-a tão doce e serena, Einstein diria, fascinado diante da beleza da criação: “Há duas formas para viver a vida: uma é acreditar que não existe milagre, outra é acreditar que todas as coisas são milagres”. Vida do milagre ou milagre da vida? Na fragilidade do ser humano toda força do Criador; na serenidade que do rosto transparece, a paz de Deus, que a tece; no abandono nas mãos de quem pode mais, o cuidado que do Céu desce para ajudar os pais!7
Não pense em abortar. Mas, se pensar, lembrem-se pelo menos disto:
. muitas pessoas gostariam de adotar a sua criança;
. “um filho pesa menos nos braços de sua mãe do que ventre é um refúgio, não um tribunal de condenação. E que você tenha graça de ouvir o próprio Deus lhe falar assim: “Ó mulher tem pena do filho que está em teu ventre. Ele é meu filho também” (cf. Is 49,15). Diga sim à vida. Você não se arrependerá!8
Uma das notas mais interessantes do período analisado nesta publicação, está intitulada “assassinato”. O que pode-se perceber é novamente um apelo a um sentimento materno inerente à mulher e à moral cristã.
Contou o jornal “O Lutador” (MG) que em uma Faculdade de Medicina o professor propôs a classe a seguinte situação: “Baseados nas circunstâncias que vou enumerar, que conselho vocês dariam a certa mulher, grávida do quinto filho? O marido sofre de sífilis e tuberculose. Seu primeiro filho nascei(sic) cego, o segundo logo morreu, o terceiro nasceu surdo, o quarto é tuberculoso e ela está pensando seriamente em abortar a quinta gravidez. Que caminho vocês aconselhariam tomar? Com base nesses fatos, a maioria dos alunos – futuros médicos – concordou que o aborto seria a melhor alternativa. Depois de prolongado silêncio na sala de aula, o professor falou: “Aos que disseram sim à idéia do aborto, saibam que acabaram de matar Ludwig van Beethoven, um dos maiores músicos que o mundo já conheceu!” 9.
7 MARTENDAL, Carlos. Vida. Coluna Retalhos do Cotidiano. Jornal da Arquidiocese, Florianópolis. Agosto/2000, ano V, ed.47 p.14.
8 MARTENDAL, Carlos. Aborto. Coluna Retalhos do Cotidiano. Jornal da Arquidiocese, Florianópolis. Outubro/1998, ano III, ed.25 p.14. Essa nota repete-se na edição 38, Novembro/1999, no espaço dessa mesma coluna.
9 MARTENDAL, Carlos. Assassinato. Coluna Retalhos do Cotidiano. Jornal da Arquidiocese, Florianópolis. Julho/2001, ano VI, ed.58. p.14.
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A criação do jornal, em 1996, ocorre em um momento histórico de lutas políticas pelos direitos sexuais e reprodutivos, onde está se configurando no cenário internacional um amplo debate em torno das temáticas relacionadas ao aborto, ao corpo, á saúde da mulher, à sexualidade, etc. Países do mundo inteiro estão em processo de envolvimento, de discussão, de reflexão e de ações nesse período. Após as Conferências Internacionais de População e Desenvolvimento do Cairo e de Pequim, é perceptível uma forte reação católica frente a essa abertura ao diálogo com a questão do aborto, e nessa reação nota-se que há um discurso religioso que se impõe através das reportagens, notas e ações noticiadas no jornal, sobre a defesa da vida e contra o aborto, com apelações constantes à consciência cristã e ao “instinto maternal10” que seria características às mulheres, novamente na tentativa de naturalizar o amor materno. Ou se é mãe, ou se é mulher. A mulher que existira antes deve abdicar desse posto perante a graça concedida de carregar um filho em seu ventre. O fato de gerar, cuidar, amar uma criança é um dom, uma benção divina e deve ser encarado como tal, pois de acordo com a doutrina instituída pela religião católica, o verdadeiro sentido da vida de uma mulher só vem à tona quando ela se torna mãe. Nesse sentido pode ser observado que o jornal reforça o amor materno como um dom, uma essência feminina, naturalizando a maternidade e fazendo crer que todas as mulheres nasceram para ser mãe, contudo, essa construção ideal não deve ser percebida e apreendida como “natural e essencial”, pois são práticas discursivas que se iniciaram no século XVII e foram intensificadas nos séculos XVIII e XIX. (BADINTER, 2003).
Nesse contexto, a luta constante da Igreja Católica em reafirmar sua posição contrária a quaisquer métodos contraceptivos e a predisposição do governo de reverter o quadro nacional com programas e campanhas informativas com relação às práticas sexuais transparece em poucas notícias, em âmbito regional e nacional promovida pela CNBB, e internacionalmente pelo Vaticano. Percebe-se a disputa entre a Igreja e o
10 Temos como exemplo de notícia que busca apelar ao instinto maternal: “A Renovação Carismática Católica promoveu o 8º Louvor de Verão no dia 18 de janeiro. Quase 4 mil pessoas lotaram o Ginásio de Esportes do Colégio São José, em Itajaí. Tema central foi “Descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força” (At 1,8). A pregação esteve a cargo de um leigo, o goiano Roberto Tannus, que a todos tocou especialmente pelo seu testemunho de vida. Contou que sua esposa Neusa contraiu rubéola durante a gravidez e os médicos logo aconselharam o aborto do bebê, que poderia nascer com sérios problemas físicos e mentais. Fiéis à fé cristã e à vida, recusaram o aborto e través da oração perseverante a Jesus e pela intercessão de Maria, a criança nasceu perfeita.Louvor de Verão em Itajaí. Jornal da Arquidiocese, Florianópolis, Março/1998, ano III, ed.18, p.03.
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Estado acerca de qual saber deve ser transmitido a população, a Igreja Católica quer que seus fiéis mantenham-se de acordo com a doutrina religiosa e o Estado busca normatizar os corpos como questão de saúde pública.
Diante da notícia divulgada por alguns meios de comunicação sobre o uso de preservativos para evitar a transmissão da AIDS, a Presidência da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirma que a Igreja não mudou de posição a esse respeito. Dom ponto de vista da moral católica não é aceitável a propagação do uso de preservativo quando favorece uma vida sexual desordenada, reduzindo a sexualidade a mero bem de consumo e insinuando que o comportamento sexual, quando “seguro” é eticamente diferente. A Igreja entende que a melhor preservação contra a AIDS é educar os jovens para uma sexualidade vivida com responsabilidade e reservando sua expressão mais íntima para a união conjugal. É importante recordar aos jovens que a propaganda do uso do preservativo como uma espécie de “vacina” contra o HIV é falaciosa, pois no Brasil sua garantia é cerca de 60 a 65%. Finalmente a CNBB, dentro da opção evangélica pelos mais necessitados, reafirma sua solidariedade com os portadores do vírus HIV, rejeita qualquer discriminação contra essas pessoas e apóia todos aqueles que lhes dedicam uma atenção especial11
Deixa clara sua crítica contra a iniciativa do Governo Federal e do Ministério da Saúde em 2003, de distribuição de preservativos nas Escolas Públicas do Ensino Fundamental e Médio contra a distribuição com relação ao uso de preservativos e com as campanhas de orientação sexual nas escolas brasileiras, entretanto, considerou “louvável” a preocupação do Poder Público para evitar a propagação da Aids e a gravidez precoce:
[…] Contudo, não parece que o método utilizado seja adequado. Pesquisas científicas mostram que há uma porcentagem significativa de infecção, mesmo com o uso do preservativo”. A CNBB diz que sente a urgência de um verdadeiro plano de educação afetiva e sexual. A vida sexual não pode ser banalizada. A vivência da sexualidade é uma das expressões do amor. Requer afetividade, doação, responsabilidade e fidelidade. A educação sexual deve ser tarefa que
11 CNBB esclarece sobre o preservativo. Coluna da CNBB. Jornal da Arquidiocese, Florianópolis, Julho/2000, ano V, ed. 46, p.05.
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compete primordialmente aos pais. “O ambiente familiar é o lugar natural para transmitir valores, para promover a dignidade da mulher e do homem e do verdadeiro significado dessa relação afetiva e sexual”. O documento encerra dizendo que é preciso trabalhar as questões de prevenção da AIDS de forma ampla. “A CNBB reconhece a complexidade humana e busca contribuir para que o homem e a mulher cresçam na conquista dos verdadeiros valores que os tomem felizes conforme os planos de Deus”12.
Com o passar dos anos e com a mudança do arcebispado, as notícias que tratam das questões referentes ao aborto começam a tornar cada vez mais escassas no jornal, dando ênfase e espaço somente ao Movimento de Defesa da Vida “Gianna Beretta Molla13” do município de Rancho Queimado – SC, fundado por Sabino Werlich e sua mulher Vali Coelho Werlich, em 1979. O exemplo da mulher que a qual o movimento leva o nome compôs as maiores notícias sobre aborto e a defesa da vida. A idéia de criar um informativo católico contra o aborto surgiu das lutas do casal para que fossem fechadas clínicas de aborto clandestinas na capital catarinense. Obtiveram sucesso nessa empreitada e optaram por continuar sua missão cristã informando os “riscos e perigos” de se cometer o “assassinato de uma vida inocente”, perante a Deus, à congregação católica e à sociedade, partindo em campanha pela defesa da vida por diversas partes do Brasil. O fundador e disseminador do Movimento pró-vida “GBM” escreveu algumas matérias, uma delas faz um apelo aos leitores católicos catarinenses se mobilizassem pela causa em defesa da vida do nascituro, mais uma vez invocando a moral e o sentimento de dolo provindos da lógica cristã:
12 AGNELO, Geraldo Majella. Coluna da CNBB. CNBB critica a distribuição de preservativos nas escolas. Jornal da Arquidiocese, Florianópolis, Outubro/2003, ano VII, ed.84, p.8.
13 Médica Italiana deu nome ao Movimento. Jornal da Arquidiocese. Florianópolis, Novembro/2003, ano VIII, ed.85, p.10. Segue abaixo:
Gianna Beretta Molla, era um(sic) médica italiana, nascida no dia 04 de novembro de 1922. Muito devota, não pretendia se casar, pensava em vir para o Brasil trabalhar com um irmão padre que estava no Maranhão. Mas por pressão da família acabou se casando com um engenheiro de fortes laços com a Igreja. Tiveram três filhos. Quando estava grávida do terceiro, descobriu que tinha um fibroma no útero, um tumor que impediria o parto. Como médica, sabia que o diagnóstico era remover a criança ainda em formação. Mas decidiu ter a criança e sacrificar a sua própria vida em favor do filho. A criança hoje é a também médica Geanna Emanoela Beretta Molla. Há alguns anos, foi constatado um milagre no Maranhão por intercessão de Gianna e, através de sua comprovação ela foi declarada beata. Agora está em processo de canonização com outro milagre acontecido no Brasil. Foi na cidade de Lorena, em São Paulo.
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“Livra os que foram entregues à morte, salva os que cambaleiam indo para o massacre. Se disseres „Mas não o sabia‟, aquele que pesa os corações não o verá? E não retribuirá a cada qual segundo o seu procedimento?” (Prov 24,11-12)O aborto clama aos céus por vingança. E nós calamos diante do sangue derramado do inocente, cruzamos os braços. Recordo a afirmação do Pe. Paul Max, quando o presidente da Human Life, dos Estados Unidos: “Não sei o que é pior: o que mata nos abortórios ou aquele que cruza os braços diante do crime do aborto!”Nós catarinenses, somos muito omissos diante do aborto. Há apenas dois movimentos pró-vida no Estado: o Pró-vida de Otacílio Costa e o Movimento GBM de Rancho Queimado. E, diga-se de passagem, com pouquíssimo apoio dos conterrâneos. Uns pobres gatos pardos no meio do fogo cruzado. Mas, repito sempre o que ouvi da boca de uma jovem: “Prefiro o amargor da derrota à vergonha de não ter lutado”. È necessário que purifiquemos as nossas vestes enquanto é tempo. Não compareçamos diante do divino Juiz com trapos manchados de sangue14.
A história que envolve o nome da italiana Gianna Beretta Molla começa com um matrimônio bem sucedido e com uma gravidez de risco. A história contada nas notícias não é precisa com relação ao número de filhos que ela criou, em uma delas, de 2003, diz que foram três gestações de risco, outra, de 2004, diz que foram quatro gestações, mostrando incoerência com as fontes que deram origem ao mito. Médica, casada e mãe de dois (ou três) filhos, teria engravidado novamente, dessa vez com problemas graves no aparelho reprodutor feminino e com risco de morte ou perder o bebê. Optou em ter o filho em detrimento de sua própria vida, pois acabou por falecer logo após o nascimento da criança. Sua história é incorporada ao discurso católico presente no Jornal da Arquidiocese como um mártir, um exemplo de amor a Deus, de respeito aos mandamentos sagrados, ao dom divino da maternidade, de sacrifício, amor ao próximo e generosidade.
Falecida em 1962, aos 39 anos de idade, mãe de quatro filhos (sic), Gianna Beretta Molla foi beatificada por João Paulo II em 1994 e agora, pouco mais de 40 anos após sua morte, é declarada Santa.O que impressiona na vida de Gianna? É uma vida relativamente normal, como a de tantos leigos e leigas nos vários países do mundo. Nascida
14 WERLICH, Sabino. Em defesa da vida. Movimento GBM – VOZES DE AÇÃO EM DEFESA DA VIDA NASCENTE. Jornal da Arquidiocese. Florianópolis, Novembro/ 1998, ano III, ed.26, p.04.
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em 1922, no norte da Itália, numa família de treze filhos, fez os estudos primários e secundários, e, enfim a faculdade de Medicina, pós-graduando-se ainda em Pediatria. Desde os 20 anos de idade participou dos quadros da Ação Católica italiana. Casada com um engenheiro, teve quatro filhos, todos com gravidez de risco. A última filha nasceu de sua decisão consciente de que salvassem antes o bebê do que sua própria vida. Uma semana após o nascimento da criança, ela faleceu, impressionando as testemunhas pela generosicade (sic) de seu gesto. Por isso, Santa Gianna é intercessora de todas as parturientes, especialmente aquelas que estejam em gravidez de risco. Seu gesto generoso, preferindo que salvassem á vida do bebê à dela, a tornou protetora e intercessora de todos os movimentos em defesa da vida nascitura, como o Movimento GBM, criado em Rancho Queimado, em nossa Arquidiocese, por Sabino Werlich, há 30 anos15.
É considerada pela arquidiocese de Florianópolis como Nossa Senhora como Protetora dos Nascituros, com data comemorativa em 25 de maio. Quando o Movimento GBM completou trinta anos de trabalhos prestados a comunidade foi publicada uma matéria comemorativa, em homenagem ao empenho em disseminar a defesa da vida defesa da vida, daquela que seria a mais indefesa, a que habita o ventre materno, possuindo como mecanismos de comunicação o jornal Em Defesa da Vida, publicação criada há 20 anos e o site (que hoje em dia encontra-se inativo), www.gbm.com.br, além da comunicação por cartas16.
[…] Não se tem números precisos, mas através dos relatos que receberam, nesses 30 anos de existência do movimento, mais de 18 mil vidas já foram salvas. Com o tempo a equipe foi crescendo, e hoje ela é composta pelo casal e mais os seus dez filhos adotivos, três deles que foram salvos do aborto. Além de duas irmãs que há dez anos resolveram incluir nos seus votos a “defesa da vida” e se dedicar ao movimento.O Jornal propagou mensagem. Como forma de fazer a mensagem de defesa da vida chegar mais longe e com que mais pessoas possam aderir à causa, foi criado há 20 anos, o jornal “Em Defesa da Vida”. Com quatro edições ao ano, quatro páginas e 20 mil exemplares, o Jornal traz assuntos variados, mas sempre apelando para uma consciência de preservação da vida, e se tornou a maior fonte de divulgação do movimento. A distribuição é feita em
15 Gianna: uma santa leiga. Jornal da Arquidiocese. Florianópolis, maio/2004, ano IX, ed. 90, p.13.
16 Movimento completa 30 anos em Defesa da Vida. Jornal da Arquidiocese. Florianópolis, Novembro/2003, ano VIII, ed.85, p.10.
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paróquias e hospitais e conta com a ajuda de pessoas simpáticas ao movimento em todo o território nacional. Algumas contribuem com uma ajuda financeira, o que permite à instituição continuar com o seu trabalho. As informações publicadas vêm de artigos coletados na internet e de movimentos pró-vida. Também leitores enviam contribuições, relatos e experiências, para o e-mail gbm@gbm.com.br. A conecção (sic) com o mundo eletrônico foi outra forma de expandir o conhecimento do trabalho. O site www.gbm.com.br recebe mensalmente mais de três mil visitas. “Por e-mail são quase 100 mensagens diárias de agradecimento, informando ou solicitando informação[…]17
Mais uma das campanhas em defesa da vida, nesse caso promovida pela Renovação Carismática Católica (RCC) em 200618, se propôs a levantar assinaturas para um abaixo assinado contra os projetos de lei pela descriminalização e legalização do aborto em tramitação no Congresso Nacional. De acordo com a coordenadora Nacional do Ministério de Fé e Política da RCC, Marizete Martins Nunes do Nascimento, a intenção seria de arrecadar um milhão de assinaturas por todo o Brasil e enviá-las com um documento de repúdio aos parlamentares. Na página online da RCC, consta a informação de que foram recolhidas 800 mil assinaturas de 2006 até hoje, juntamente com os seguintes dizeres:
Existem pessoas tentando liberar o assassinato de crianças ainda no ventre de sua mãe.O que você vai fazer para impedir esse crime? Todas as pessoas batizadas no Espírito Santo estão convocadas a lutar ativamente contra a descriminalização do aborto no Brasil. Não podemos pecar por omissão! Retomemos nossa luta pela vida19!
Além desta, foi realizada mais uma campanha sensibilizadora em prol da total abstinência sexual como método contraceptivo mais eficaz entre os jovens americanos, novamente buscando trazer para o cotidiano dos fiéis católicos, bons exemplos de cristandade e moral em acontecimentos que ocorreram em outros países.
17 Ibidem.
18 RCC pretende levantar 1 milhão de assinaturas. Jornal da Arquidiocese. Florianópolis, Novembro/2006, ano XI, ed.118 p.15.
19 Disponível em: http://www.rccbrasil.org.br/noticia.php?noticia=120 – Acesso em 18 dez.2010.
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Inspirados na campanha americana, em 2007 jovens de todo o mundo promoveram um ato de exaltação da “pureza” física e espiritual em contraponto ao que denominam uma “cultura do sexo e da promiscuidade” imposta pela sociedade e pelos meios de comunicação e consumo contemporâneos, que tratam o sexo sem a importância que lhe é devida, minimizando seu valor em um processo de banalização do ato sexual, que deve ser restringindo até que sejam concretizados os laços do matrimônio, onde o homem, e principalmente a mulher que mantiveram sua virgindade “intacta” até então, possam concretizar o ato sexual.
Jovens dos estados Unidos e distintas partes do mundo celebraram em 14 de fevereiro o 4º Dia da Pureza. A iniciativa é da Liberty Counsel que busca promover a virtude da pureza para conscientizar os jovens que vivem em meio da cultura atual que elogia o hedonismo e a libertinagem sexual.Conforme o site pró-vida LifeSiteNews.com, foram distribuídos convites e os jovens que participaram do evento usaram camisetas e pulseiras alusivas. Do mesmo modo, distintas atividades complementares se organizaram em escolas, centros comunitários e Igrejas nos Estados Unidos. LifeSiteNews.com também explica que os jovens são “inundados na escola, televisão e na internet cm mensagens que dizem que a luxúria e a exploração são normais e saudáveis e que os valores morais tradicionais devem ser desprezados para explorar sua sexualidade o mais cedo e com maior freqüência. O Dia da Pureza foi criado para conscientizar sobre os perigos da conduta promíscua”. Mesmo que os jovens que já tiveram atividade sexual podem começar novamente a vida de abstinência no Dia da Pureza, diz a Liberty Counsel. Os estudantes enviam assim uma mensagem a seus amigos, pais, Igrejas, comunidades, legisladores e meios de comunicação de que já é tempo para uma mudança positiva na cultura20.
De acordo com o filósofo Michel Foucault (1985), a Igreja católica circunscreve e reveste a sexualidade a um espaço de sacralidade normatizando as práticas sexuais dentro de princípios tradicionais do catolicismo. Quando ativa seus mecanismos discursivos baseados em preceitos bíblicos e na autoridade que lhe foi concedida como instituição religiosa, faz com que a sexualidade seja ditada, controlada, e vigiada. Contudo, não há consenso entre os discursos, pois enquanto o discurso
20 Jovens em todo o mundo celebram o dia da Pureza. Jornal da Arquidiocese, Março/2007, ano XI, ed.121, p.15.
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médico ressalta a importância de uma vida sexual ativa e sadia, informando métodos e técnicas não só para a contracepção, mas também para a promoção do prazer sexual a religião católica se mostra totalmente contrária. Segundo Maristela Moreira de Carvalho,
[…] sexualidade visão, também sacralizada, só que por um único Deus, que a tomou para si, dando-lhe um estatuto e uma finalidade própria. E é sobre essas representações que a Igreja vem calcando o seu discurso, reforçando esse estatuto e essa finalidade, inserindo o prazer e a autonomia dos indivíduos no interior do seu discurso, reinserindo-os a cada “movimento de fuga”, a cada tentativa de governo de si.Na medida em que Deus sacraliza o ato sexual, restringindo-o ao seu domínio e controle, e sendo a Igreja a instituição que a ele representa e para quem ele conferiu autoridade, esta vai buscar manter, no decorrer de sua história, as imagens que se constituíram sobre a sexualidade, buscando definir claramente a sua função (CARVALHO, 2001:166).
O tema da Campanha da Fraternidade adotado pela CNBB para 2008, que tem como lema “Escolhe, pois, a vida”(Dt 30,19), possibilitou uma abertura maior dos espaços para reportagens, notícias, notas e reflexões em torno da questão das práticas abortivas. Para a execução dos debates, houveram seminários preparatórios e cursos de formação em todas as dioceses do Brasil, e no caso da arquidiocese da grande Florianópolis eles ocorreram em dois municípios, Itapema e Santo Amaro da Imperatriz21, sendo disseminados posteriormente por paróquias, escolas, meios de comunicação e parceria com setores da sociedade civil, como por exemplo organizações pró-vida, a com a elaboração de um “Manifesto pela Vida22”, coordenado pela equipe organizadora da CF-2008, que seria uma manifestação silenciosa pela paz. A intenção seria de realizar esse ato em Florianópolis e motivar as comunidades para que também evento semelhante seja feito em outras localidades da Arquidiocese, com o objetivo de utilizar o tema da Campanha da Fraternidade para realizar manifestações em defesa da
21 CF-2008 terá dois seminários. Coluna CF-2008. Jornal da Arquidiocese. Florianópolis, novembro/2007, ano XII, p.05. Esta notícia foi repetida na edição posterior na mesma página, em dezembro/2007, ed.130, p.05.
22 CF-2008 reflete sobre a defesa da vida: Manifesto busca conscientizar para a vida. Coluna Geral. Jornal da Arquidiocese, Florianópolis, Janeiro e Fevereiro/2008, ano XII, ed. 131, p.03. Esta notícia repete-se em abril, ed.133, Coluna Pastoral, p.11
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vida, contra a violência e contra a destruição do meio ambiente. O objetivo principal da Campanha da Fraternidade – 2008 foi de:
levar a Igreja e a sociedade a defender e a promover a vida humana, desde a sua concepção até a sua morte natural, compreendida como dom de Deus e co-responsabilidade de todos na busca de sua plenificação. Parte-se, pois, da beleza e do sentido da vida em todas as circunstâncias, e do compromisso ético do amor fraterno23.
Para a abertura da CF-2008, Dom Murilo Krieger, arcebispo metropolitano escreveu ao editorial do jornal, propondo uma reflexão sobre o porque de escolher a vida. De acordo com esse texto24, por mais absurdo que pareça, há pessoas que optam por o que ele chama de “cultura da morte” e não por seguir a vida, pois, a “cada momento, em muitos lugares, a vida humana é ameaçada por escolhas contra ela”. Continua dizendo que, desde o início a vida já corre riscos pela possibilidade do aborto e em seu fim, pela eutanásia, relembrando os dizeres do Papa João Paulo II que a própria consciência humana está sendo condicionada a essa situação, a ponto de não fazer mais distinção entre o bem e o mal (encíclica Evangelium Vitae), tão penetrada está a mentalidade “individualista, relativista e em medíocre pragmatismo”.
Além desse projeto abrangendo o território nacional, houve concomitantemente uma campanha mundial promovida pelo Vaticano25 contra o aborto. Isso transparece nas páginas do Jornal da Arquidiocese não só através das notícias em si, como também de estudos bíblicos temáticos, referentes ao ser humano e ao nascituro inocente. Analisando as notícias presentes nas páginas do Jornal da Arquidiocese, campanhas para a valorização da família, do casamento como instituições irrevogáveis, da gestação como uma dádiva divina, um presente de Deus e elemento fundamental para o fortalecimento da família foram muito presentes, assim como a institucionalização do uso do espaço estatal para fins religiosos (diversos eventos ocorreram em espaços
23 Fraternidade e defesa da Vida. Coluna CF–2008. Jornal da Arquidiocese. Florianópolis, Novembro/2007, ano XII, ed.129. p.07
24 KRIEGER, Murilo S.R. Escolhe a Vida!. Coluna Palavra do Bispo. Jornal da Arquidiocese. Florianópolis. Janeiro e Fevereiro/2008, ano XII, ed.131, p.02
25 Vaticano promove campanha mundial contra o aborto. Coluna Mundo. Jornal da Arquidiocese. Florianópolis, Janeiro e Fevereiro/2008, ano XII, ed.131, p.15.
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públicos como a Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina para homenagear a família e a vida).
Quando foi iniciada a Campanha da Fraternidade de 2008, com o tema de defesa da vida, há um retorno dessas discussões, pois a temática está em voga no mundo inteiro, as discussões mundiais estão voltadas para a saúde da mulher, para o direito individual ao corpo e aos direitos humanos. Os argumentos presentes nas notícias são apresentados com ares de verdade, contudo, não há demonstração de preocupação ou algum cuidado com as afirmações publicadas no jornal em termos de fundamentação histórica ou científica, indicando uma tentativa de reforçar seus argumentos em torno da defesa da vida do feto, fato que não passa despercebido aos olhos de leitores mais atentos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. 7.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
FOUCAULT, Michel. O regime dos prazeres. In: História da Sexualidade 3: o cuidado de si. 4ª Ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985.
NUNES Maria José Rosado. O Tratamento do aborto pela igreja católica. In:Revista estudos feministas. Editora da UFSC vol 5 nº 2 1997.
________________________. A Discussão Atual na Igreja Católica Sobre o Aborto. Católicas por el Derecho a Decidir. Revista Quinzena n. 6, dez/1993.
FONTES IMPRESSAS – JORNAL DA ARQUIDIOCESE DE FLORIANÓPOLIS
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MARTENDAL, Carlos. Vida. Coluna Retalhos do Cotidiano. Jornal da Arquidiocese, Florianópolis. Agosto/2000, ano V, ed.47 p.14.
MARTENDAL, Carlos. Aborto. Coluna Retalhos do Cotidiano. Jornal da Arquidiocese, Florianópolis. Outubro/1998, ano III, ed.25 p.14. Essa nota repete-se na edição 38, Novembro/1999, no espaço dessa mesma coluna.
MARTENDAL, Carlos. Assassinato. Coluna Retalhos do Cotidiano. Jornal da Arquidiocese, Florianópolis. Julho/2001, ano VI, ed.58. p.14.
AGNELO, Geraldo Majella. Coluna da CNBB. CNBB critica a distribuição de preservativos nas escolas. Jornal da Arquidiocese, Florianópolis, Outubro/2003, ano VII, ed.84, p.8.
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WERLICH, Sabino. Em defesa da vida. Movimento GBM – VOZES DE AÇÃO EM DEFESA DA VIDA NASCENTE. Jornal da Arquidiocese. Florianópolis, Novembro/ 1998, ano III, ed.26, p.04.
KRIEGER, Murilo S.R. Escolhe a Vida!. Coluna Palavra do Bispo. Jornal da Arquidiocese. Florianópolis. Janeiro e Fevereiro/2008, ano XII, ed.131, p.02
SÍTIOS ACESSADOS
Discurso do Papa João Paulo II em Comemoração do Quinto Aniversário da Encíclica “Evangelium Vitae”, em Roma, 14 de Fevereiro de 2000. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/2000/janmar/documents/hf_jp-ii_spe_20000214_acd-life_po.html – Acesso em 15 dez.2010.
Razões para escolher a vida. Nota Pastoral do Conselho Permanente Conferência Episcopal Portuguesa sobre o referendo ao aborto. Fonte: Ecclesia, 19 de Outubro de 2006. Disponível em: http://www.juntospelavida.org/noticias/061019.htm – Acesso em 16 dez. 2010.




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