Estilista de Alagoas é sucesso no mundo da moda com peças que mostram o Nordeste.

Jonhson Cavalcante, de 36 anos, é natural do Sítio Serrote, Zona Rural de Arapiraca, e já trabalhou com a modelo transexual Lea T

Hoje, sonhar é necessário. O sonho foi meu combustível, e me fez atingir o que sou. Se você é do interior de um estado e quer ser um profissional da moda, acredite na sua capacidade e não ouça opiniões alheias. Assim, tudo que almejar, se realizará”. A mensagem de incentivo é do estilista Jonhson Cavalcante, de 36 anos. Natural do Sítio Serrote, na Zona Rural de Arapiraca, o jovem deixou a “roça” para desbravar o Brasil com suas peças que encantam qualquer um.

Com criações ousadas, de cores alegres e com características do Nordeste, o jovem revelou que a aptidão para a moda vem de berço. A mãe dele, Marinalva Senhoria Cavalcante, de 59 anos, tinha como hobby a costura. Assim, observá-la trabalhando diariamente, despertou em Jonhson a vontade de criar. “Ainda criança, ficava brincando com os retalhos de tecidos embaixo da máquina de costurar da minha mãe. Aos sete anos, peguei a boneca da minha prima e fiz um vestido. Transformar um tecido plano em um produto acendeu em mim o desejo de ser estilista”, relembrou.

No entanto, o que Jonhson não imaginava, era que para realizar esse sonho, vários obstáculos deviam ser superados. Filho de uma servidora pública aposentada, cresceu ouvindo que a profissão não era rentável, além conviver com a dura realidade do estado de Alagoas não contar com uma faculdade especializada em moda.

“Minhã mãe acreditava que para viver bem, o homem tinha que ter um emprego fixo e receber uma quantia x todo mês. Ela não queria que eu fosse autônomo, principalmente porque moramos em um interior. Porém, coloquei na minha cabeça que conseguiria e fui atrás dos meus sonhos em outro estado”, contou o estilista.

Em 2010, acreditando no sucesso, chegou em São Paulo e logo ingressou na Universidade Bandeirante Anhanguera (UNIBAN). Matriculado no curso de Design de Moda, dividiu casa com amigos e foi trabalhar em uma confecção de roupas para custear as despesas.

“Em São Paulo a pessoa não vive e, sim, sobrevive. Para me manter na cidade e pagar minha faculdade comecei a trabalhar duramente. Saía de casa às 5h e só retornava por volta das 23h”, contou.

AS BONECAS DE TIETA

Após concluir a faculdade de moda no ano de 2012, Jonhson percebeu que precisava de mais. Decidiu encarar uma nova etapa e deu início a uma pós-graduação na Faculdade de Tecnologia Senai Antoine Skaf, também em São Paulo. Foi nesse período que, segundo ele, teve a oportunidade de participar de dezenas de concursos.

“As Bonecas de Tieta” foi a primeira coleção criada pelo estilista

FOTO: REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

“Novos Talentos do Senai” que tem por objetivo estimular os estudantes a colocarem em prática os conhecimentos adquiridos em sua vida acadêmica, foi a primeira competição da qual participou. Desafiado a desenvolver uma minicoleção de moda, Jonhson apresentou para o país, em 2015, o trabalho “As Bonecas de Tieta” ,cuja inspiração foi a obra do escritor brasileiro Jorge Amado.

“Tirei umas férias em Maceió e aproveitei para ir a um restaurante regional da cidade. Quando cheguei lá, passou um filme na minha cabeça. Lembrei do interior em que eu nasci e cresci, e do trabalho na roça. Ao retornar para São Paulo e ser convidado para participar do concurso, já sabia o que criar. ‘As Bonecas de Tieta’ foi uma coleção que representou bastante o meu Nordeste”, destacou ele, que subiu ao lugar mais alto do pódio.

Outro concurso que participou foi o “Brasil Fashion 2016”, responsável por reunir os melhores alunos de moda de cada estado do país. Representando São Paulo, teve como orientador o estilista nacional Alexandre Herchcovitch. Juntos, eles desenvolveram a coleção “A Roça”.

Estilista mostra peças produzidas para o “Brasil Fashion 2016”

Imagem: Jonhson Cavalcante

De acordo com Jonhson Cavalcante, foi com Alexandre que soube o significado de moda autoral. “Confesso que fiquei com medo de conhecê-lo. Eu o admiro muito e não queria desconstruir sua imagem. Vai que fosse chato? Mas, não! Ele foi atencioso comigo, me levou para conhecer sua loja e com seu estilo urbanista me ensinou a fazer uma moda autoral”, contou o etilista, que descreve suas próprias peças como alegres e cheias de atitude.

“LEA T SE EMOCIONOU COM MINHA HISTÓRIA”

Estilista conheceu a modelo Lea T em 2016

FOTO: REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

Antes de partir para o seu sonho em São Paulo, Jonhson Cavalcante precisou trabalhar na roça no Sítio Serrote, Zona Rural de Arapiraca. Sem perder o estilo, com chapéus e roupas customizadas, colhia fumo, macaxeira e feijão para o próprio sustento. O dinheiro, que às vezes aparecia, serviu para comprar tecidos e o ajudar a viajar.

Ainda no “Brasil Fashion 2016”, além de Alexandre Herchcovitch, teve a oportunidade de conhecer a modelo transexual brasileira Lea T. Conforme o estilista, o encontro era esperado por todos que estavam no backstage do desfile.

“Quando me encontrei com Lea pedi um abraço e contei minha história de vida: o jovem que saiu da roça e conseguiu ser um profissional da moda. Ela, seu assistente e todos que estavam ao redor se emocionaram. E ainda por cima, foi Lea uma das modelos que vestiram minha coleção”, ressaltou Jonhson Cavalcante.

DRAGÃO FASHION BRASIL 2018

Modelos com peças da Coleção “Renda-se ao Guerreiro” que representa o Nordeste

FOTO: DIVULGAÇÃO

No último sábado (12), aconteceu em Fortaleza o “Dragão Fashion Brasil 2018”. Idealizado por Claudio Silveira, a principal missão do DFB é lançar para o mundo estilistas e marcas comprometidas com uma visão mais autoral da moda.

Marcando presença, Jonhson desenvolveu uma coleção pra lá de especial. Intitulada como “Renda-se ao Guerreiro”, ele apresentou peças que mostram a cultura nordestina. A renda e a dança folclórica foram os pontos chave do trabalho que precisou de três meses para ser finalizado.

“A coleção fala de render-se ao guerreiro. Render-se à cultura alagoana, à luta de todos os dias para ser alguém na vida, para realizar sonhos. É uma coleção para os que acreditam sempre”, avalia Jonhson, quando perguntado sobre o significado do trabalho.

À Gazetaweb, ele também expôs que inspiração e criatividade para as peças se devem a artistas nacionais e internacionais como o estilista britânico Alexander McQueen e o brasileiro Jorge Feitosa, esse último, muito famoso por produzir nas roupas sua trajetória de vida.

PROJETOS

Atelier improvisado na casa da avó  de Jonhson em Arapiraca

FOTO: CORTESIA

De volta a Alagoas após oito anos em São Paulo, o estilista comenta que pretende montar um atelier em Arapiraca. Formar uma equipe e trabalhar com a cultura local também está em seus planos. “Voltei para minha terra e logo montei um atelier improvisado na casa da minha vó. Quero me organizar o mais rápido possível e começar a trabalhar com as rendeiras daqui. Elas fazem um bordado lindo, sem contar que temos nosso famosíssimo filé”, salienta Jonhson, que si diz apaixonado por coisas populares.




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