Metas abusivas: sucesso para empresas se transforma no pesadelo de trabalhadores(Atenção Empresas)

Funcionários não suportam pressão, adoecem e precisam se afastar do trabalho  COMENTE

Até na hora de ir ao banheiro, o jovem Walisson Fidelys, de 22 anos, sentia que estava sendo vigiado. A sensação, porém, estava distante de ser apenas uma impressão do alagoano: no local em que ele trabalhava, uma empresa de telemarketing, qualquer pausa influenciava no cumprimento das metas diárias e, por isso mesmo, elas eram acompanhadas de perto. Até demais.

“Eu ia ao banheiro e, quando saía, tinha uma pessoa na porta me esperando, vendo quanto tempo passei lá. Isso era bem constrangedor, porque todo mundo via”, conta. “Quando eu passava, essa pessoa, que era um outro funcionário próximo da minha supervisora, também avisava a ela que eu estava indo ao banheiro”, acrescenta o trabalhador, que foi ficando cada dia mais acuado com a situação.

As idas ao toalete, entretanto, tinham um motivo bem mais grave que o aparente: era lá o refúgio onde Walisson tentava minimizar os sintomas de uma síndrome do pânico adquirida graças à rotina de trabalho, em especial à pressão e às metas estabelecidas pela firma, muitas delas difíceis de serem cumpridas. Era preciso, por exemplo, fazer cerca de cem ligações por dia e ficar, no máximo, 220 segundos na linha com cada cliente.

“Tínhamos o tempo para os atendimentos. Muitas vezes, a cobrança era que eles tivessem 180 segundos, mas, às vezes, o problema do cliente demandava mais tempo. Se passasse daquilo, o supervisor vinha cobrar, dizia que isso estava atrapalhando o resultado dele, da equipe. No primeiro setor onde trabalhei, de cancelamentos, nossa meta era impedir que o cliente cancelasse e quando ele cancelava era ruim pra gente. Eram metas impossíveis de bater”, ressalta.

O transtorno maior teve início no dia em que precisou faltar para prestar um concurso – a folga que ele possuía havia sido negada pela coordenação. Quando voltou, foi transferido de setor e, lá, a perseguição foi ficando cada vez mais acirrada. “A cobrança era muito grande em relação às metas e ao resultado, e também a tudo que eu fazia. Por causa disso, a gente acaba sendo pressionado emocionalmente”.

Walisson ficou quase um ano fora do mercado de trabalho

FOTO: REPRODUÇÃO

Os sintomas estranhos – tremores, suores, falta de ar – acenderam um alerta. Como um colega de firma já havia relatado o mesmo, logo soube do que se tratava e procurou uma psiquiatra. Foi diagnosticado com pânico, começou a medicação e foi afastado do trabalho durante três meses. Mas, ao voltar e fazer o exame de retorno, terminou escanteado até ser demitido.

“Fiquei ‘zanzando’ pela empresa. Não me colocaram em setor nenhum. Fiz a reintegração, outro treinamento, mas ia para a empresa e ficava jogado no refeitório porque não podia entrar no meu setor. Depois, eles me demitiram dizendo que não precisavam mais dos meus serviços. Passei um bom tempo fora do mercado e só vim começar a trabalhar mês passado. Fiquei de março de 2016 até fevereiro sem trabalhar”.

Agora, ele é funcionário em uma escola e ainda se recupera do baque. “Por enquanto, não tenho mais sintomas tão graves em relação à doença. Em alguns momentos ainda aparecem alguns efeitos, mas não como antes. Tive uma melhora bem significativa, mas foi horrível. Acho que é algo que ninguém gostaria de passar”, relembra o ex-atendente.

Walisson não está sozinho. No ano passado, 216 alagoanos tiveram benefícios concedidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) devido a desordens mentais. Entram aí episódios depressivos e outros transtornos relacionados à ansiedade. Em 2016, haviam sido 189, segundo levantamento feito pelo próprio órgão em Alagoas.

O problema vem sendo detectado pela Previdência Social como causa de afastamento do trabalho e, atualmente, o Brasil apresenta o maior número de casos de depressão na América Latina, sendo o quinto do mundo em pessoas com a doença, segundo relatório global sobre transtornos mentais publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em fevereiro de 2017.

De acordo com estatísticas nacionais do INSS, em 2016, 75,3 mil trabalhadores foram afastados do emprego por depressão, com direito a recebimento de auxílio-doença. Eles representaram 37,8% de todas as licenças motivadas por transtornos mentais e comportamentais. Ao menos 10,6 mil foram considerados acidentes de trabalho, ou seja, tiveram o ambiente profissional como um dos agentes desencadeadores.

O Brasil também lidera a lista de pessoas com doenças ligadas à ansiedade na América Latina, com 9,3% da população com algum tipo de questão ligada a isso: síndrome do pânico, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo e desordens de estresse pós-traumático, ansiedade social e ansiedade generalizada. A taxa é três vezes superior à média mundial.

INSS: BENEFÍCIOS CONCEDIDOS POR TRANSTORNOS MENTAIS*

ESPÉCIE 2016 2017 TOTAL
Auxílio Doença Previdenciário 176 198 374
Aposentadoria por Invalidez Previdenciária 2 11 13
Amparo Social Pessoa Portadora Deficiência 3 1 4
Auxílio Doença por Acidente do Trabalho 8 6 14
TOTAL 189 216 405

*Pesquisa executada em 02/03/2018, às 13h40. Fonte: INSS/AL

Quando o trabalho vem com gritos e ofensas

No caso de Letícia Silva*, de 23 anos, a pressão veio não só com as metas, mas também em forma de gritos e ofensas no ambiente de trabalho. Estudante de publicidade, ela fora contratada para fazer as redes sociais de uma escola em Maceió. O que começaria como uma oportunidade acabou em crises de ansiedade e um início de síndrome do pânico. A relação com a patroa era o que mais complicava.

Metas impostas pela empresa fez trabalhadora adoecer

Ela se afastou do trabalho devido à grande pressão que sofria

“Ela ficava me dizendo que o jeito que eu fazia não estava bom. Todos os dias ela olhava me dizia: ‘Isso aqui é meu melhor?'”, conta. “Passei a deixar tudo do jeito que ela queria, ela dava o ok, mas depois de um tempo dizia que estava uma porcaria. Me mandava fazer tudo de novo, às vezes na hora de sair. Eu ainda tentava conversar, mas ela falava que eu não sabia de nada”, acrescenta.

Foi nesse período que surgiram as metas: era preciso postar um determinado número de fotos por dia e cada uma delas deveria ter a quantidade de curtidas estipulada pela chefe. Depois veio a determinação dos horários em que as postagens deveriam acontecer. O problema é que em muitos deles Letícia não estava na empresa e precisava trabalhar de onde estivesse. Inclusive no ônibus.

“Se eu não tivesse com internet no celular, como ia fazer? Então postava antes de sair de lá. Eu também não tinha material, celular da escola, computador, e muitas vezes fazia do computador de casa. Quando eu estava com internet, tinha que postar num ônibus lotado, às 18h, em pé. Já quando eu postava antes de sair da escola ela mandava mensagem reclamando e dizendo que eu não fazia nada do jeito que ela queria”.

Letícia (nome fictício) ouvia gritos da chefe, que cobrava cumprimento de metas

FOTO: JOSÉ FEITOSA

As metas passaram a ficar inatingíveis e a jovem começou a se questionar enquanto profissional. Vieram dores de cabeça, crises de ânsia, falta de vontade de ir à ao trabalho. “Até que houve um dia em que ela estava muito estressada e chegou gritando, batendo na mesa. Quando ela bateu na mesa, fiquei com falta de ar, não conseguia falar. Corri para o banheiro e me tranquei. Depois peguei minha mochila e fui embora. No outro dia conversei com ela e contei o que estava acontecendo”, ressalta.

Letícia disse que queria sair do emprego. A empregadora, entretanto, pediu uma nova chance – disse que só a provocava para incentivá-la. A estudante aceitou ficar por mais um mês, mas, em 15 dias, foi desligada do local. A experiência de seis meses deixou marcas na alagoana, que, apesar de ter encarado a situação como um aprendizado, teve que retrabalhar a autoestima.

“Pedi para sair porque precisava escolher minha saúde mental. Me sentia muito triste, pra baixo, pensava que não era capaz de nada. Fiquei dois meses sem conseguir mandar currículo porque achava que não era capaz de trabalhar em lugar nenhum. Acabou com a minha autoestima. Tive que trabalhar muito para saber que não era assim, que não era algo que eu tinha controle, porque me sentia culpada com o que ela falava”.

Para bancária, metas viraram processo judicial

Com a bancária Ana Costa*, a situação foi parar na Justiça. Depois de sofrer três assaltos na agência onde trabalhava, de adquirir uma Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e de sofrer com as metas impostas, ela terminou por desenvolver também uma síndrome do pânico. E foi demitida no período em que estava afastada. O juiz que julgou o caso entendeu que houve abuso e deu ganho de causa no valor de R$ 100 mil.

Nos últimos meses de gestação e ainda abalada com o que viveu, ela não quis falar com a reportagem. Mas a advogada Carolina Agra relata que o trauma foi grande: a cliente não conseguia dormir ou entrar na agência sem ser acompanhada, passou a viver a base de remédios e chegou ao ponto de ter visões. Duas perícias foram realizadas ao longo do julgamento – a ação foi impetrada em 2016 e a sentença saiu no mês passado.

“Trabalhamos com provas documentais, testemunhais e periciais. Foram feitas duas perícias no processo. Uma para detectar se a LER foi adquirida no trabalho e o resultado constatou que sim, e a outra com relação aos danos psicológicos”, destaca. “Foi um processo muito trabalhoso. Foram ouvidas cinco testemunhas e a audiência foi adiada algumas vezes porque os depoimentos eram muito prolongados”.

Agora ela aguarda para ver se o banco, que nega responsabilidade quanto aos danos sofridos pela funcionária, ainda vai recorrer da decisão. Enquanto isso, Ana segue no cargo, mas afastada e recebendo benefício do INSS. “O banco não pode demiti-la porque ela tem estabilidade. Nenhum empregado pode ser demitido doente”, afirma Carolina.

A advogada conta que os episódios de violência – quando a cliente teve armas apontadas na cabeça – pesaram bastante, mas na ação ela pediu também ressarcimento por danos morais devido a perseguições e situação vexatórias causadas por metas abusivas. Ela diz que estabelecer objetivos a serem cumpridos pelos funcionários não é ilegal, mas o problema é quando as cobranças ultrapassam o razoável.

“As metas normais geralmente os funcionários conseguem atingir. Mas muitas vezes elas são impossíveis, além de virem com cobranças exacerbadas, como por e-mail tarde da noite, depois do expediente. Ou quando vêm acompanhadas de palavras que agridem, como o chefe que chama de incompetente, despreparado. A meta passa a gerar qualquer dano a partir do momento em que é cobrada de forma excessiva”.

Subnotificação ainda é grande

Gardênia conta que diagnóstico subjetivo atrapalha na notificação

FOTO: LARISSA BASTOS

Por mais que situações como as narradas pela advogada sejam comuns no ambiente de trabalho, elas continuam subnotificadas nos serviços de saúde. Classificadas como doenças de notificação compulsória – aquelas em que o registro é obrigatório -, os transtornos mentais causados em decorrência da atividade laboral seguem quase invisíveis ao sistema.

Tanto que, em 2017, somente 107 casos foram contabilizados pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesau). Os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinam) são computados pelo Centro de Vigilância à Saúde do Trabalhador (Cerest) do órgão estadual e, apesar de baixos, mostram um crescimento em relação a anos anteriores: em 2016, foram 49 e, em 2015, apenas 15.

Segundo a coordenadora do Cerest, Gardênia Santana, vários fatores contribuem para essa realidade, incluindo a complexidade do diagnóstico. “Um transtorno mental tem um diagnóstico muito subjetivo e ainda existe uma dificuldade de relacioná-lo com o trabalho”, diz. “O profissional que atende muitas vezes não faz a relação daqueles sintomas com a atividade laboral”.

Isso significa que os sintomas podem até ser tratados pelo médico, mas a notificação acaba não sendo feita no sistema relativo à saúde do trabalhador. “Nem sempre o profissional tem a visão para fazer essa relação da atividade laboral com o adoecimento. Precisamos do despertar desses profissionais que estão na ponta para que façam essa relação do processo de saúde e doença com o trabalho”, aponta.

As profissões que mais aparecem na lista são cobrador e motorista de ônibus, técnico de enfermagem, assistente administrativo, policial militar, enfermeiro e operador de caixa. As informações não são apenas dos serviços públicos, mas para que os atendimentos particulares cheguem ao conhecimento do Sinam é preciso que as vigilâncias municipais realizem buscas ativas.

O transtorno mental é algo em que ainda somos muito pobres de informação pela dificuldade da notificação. Se eu não conheço o problema e não enxergo esses casos no perfil epidemiológico, o que também acontece nacionalmente, aquilo não é um problema”, ressalta Gardênia Santana.

Justiça do Trabalho tem número alto de ações sobre adoecimento mental

Uma média anual de quase 10% dos processos que chegam às mãos do juiz do Trabalho Flávio Luiz da Costa discute adoecimento mental no emprego. Em 2017, somente a 2ª Vara Trabalhista recebeu mais de 1.700 ações e uma parcela dessas dizia respeito a queixas de funcionários que relataram sofrer de doenças mentais acometidas no ambiente em que trabalham.

Juiz do Trabalho, Flávio Costa analisa inúmeras demandas sobre adoecimento mental

FOTO: GAZETA DE ALAGOAS/ARQUIVO

O magistrado ressalta que há uma pressão muito grande de algumas empresas pelo cumprimento de metas. É exigida produtividade extrema, o que acaba gerando, conforme explica, acirramento de competição no ambiente do trabalho.

“Eis aí um conjunto de circunstâncias favoráveis ao aparecimento ou agravamento de doenças mentais”, avalia Flávio Costa. No entendimento dele, as metas e as cobranças podem ocorrer, mas devem se limitar à razoabilidade e ao bom senso, não podendo ser excessivas nem cobradas de modo aviltante ou de forma grosseira, pois assim, na avaliação dele, tornam-se inapropriadas.

O juiz revela que a cada ano tem aumentado o número de ações com pleito de reconhecimento da relação entre a enfermidade de ordem mental e o trabalho desenvolvido, embora, segundo ele, não há um filtro no sistema do Processo Judicial Eletrônico que mostre quantos processos foram ajuizados com a “temática de adoecimento mental”. Um dos motivos para não se ter dados precisos é que os processos com citações neste sentido entram na estatística de pleitos de danos morais, materiais, junto com diversas outras causas de pedir.

E explica que o trabalhador doente pode requerer, à Justiça, na reclamação que fizer, o reconhecimento de período de estabilidade (em função do acidente de trabalho caracterizado pela doença) ou ainda a rescisão indireta do contrato de trabalho. “Temos verificado que, geralmente, os bancários, os rodoviários e os vendedores de produtos e/ou serviços são os mais afetados pelas doenças e/ou transtornos mentais. Embora, os teleatendentes estejam no caminho dos que mais reclamam.

Quando detectada a doença, o contrato de trabalho fica interrompido e os 15 primeiros dias da licença médica serão pagos pelo empregador e a partir do 16º dia será pago pela Previdência Social, com a suspensão do contrato de trabalho. O juiz acrescenta que, comprovada a relação entre a doença mental e o emprego, o funcionário, após a suspensão do contrato de trabalho, fica estável (não pode ser demitido) por até um ano após a recuperação. Em casos extremos, pode ser concedida a aposentadoria por invalidez.

Flávio Costa esclarece que, das doenças profissionais, há os transtornos relacionados ao trabalho, que podem estar ligados às mudanças de humor, a depressão, transtornos neuróticos (Síndrome do Pânico e estresse pós-traumático, por exemplo) e o uso de substâncias psicoativas, como o álcool e as drogas. E ressalta que, em regra, essas patologias se desencadeiam a partir do chamado estresse ocupacional, ocasionado por fatores como cobrança excessivas (metas), prática de assédio moral e situações que desrespeitam a individualidade das pessoas.

“No mercado de trabalho há uma busca crescente pelo aumento da produtividade. Daí, por vezes, talvez na ânsia em se extrair melhores resultados, ocorrem situações que abrange humilhações, perseguições e agressões verbais, os quais são elementos que prejudicam a saúde mental no ambiente corporativo”, destaca o magistrado.

Ele também cita que o adoecimento mental pode estar ligado à elevada carga horária exercida, o ritmo de trabalho e o quanto este serviço exige dele mesmo em horários de folga. “Situações incidentais como assaltos e até acidentes podem levar ao adoecimento mental, principalmente se houver a repetição do evento”, complementa, evidenciando que muitas das vezes o adoecimento é um mal invisível e silencioso.

Programa Trabalho Seguro foca no adoecimento mental

A Justiça do Trabalho informou que tem acompanhado com muita preocupação o aumento dos casos de afastamento do serviço por adoecimento mental e que tem adotado várias ações, como cursos, seminários e palestras com o objetivo de chamar a atenção de magistrados, servidores, estagiários, do público externo e de toda a sociedade para a importância em se adotar medidas protetivas da saúde mental.

FOTO: DIVULGAÇÃO

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) divulgou que o foco do Programa Trabalho Seguro deste ano é o adoecimento mental. De acordo com o juiz Flávio Costa, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) em Alagoas está se articulando para repercutir e discutir o problema com a sociedade.

“Estão programadas entrevistas, práticas esportivas e educativas, seminários, além de adotar um dos meses do ano, no caso, o setembro amarelo, e uma data específica, 15 de setembro, para realçar a questão”, ressalta, defendendo medidas de prevenção como melhor caminho para que sejam evitados os conflitos e situações de risco ou vulneráveis.

Internamente, o TRT já colocou em prática as ações do programa PAIS, que tem objetivo de identificar as fontes geradoras de mal-estar no trabalho, de modo a construir estratégias de prevenção e intervenção; promovendo a saúde e prevenindo doenças ligadas às atividades laborais, inclusive no âmbito mental, tudo com o propósito de promover a qualidade de vida no trabalho.

“Assim sendo, temos juristas, médicos, acadêmicos e especialistas nacionais e internacionais sobre os transtornos mentais relacionados ao trabalho, problema que afeta cada vez mais os profissionais brasileiros. O tema vem sendo trabalhado pelo Programa de Trabalho Seguro da Justiça do Trabalho desde 2016, devido à relevância de debater junto com a sociedade e instituições responsáveis medidas de detecção das causas e prevenção para esses tipos de enfermidades”, esclarece.

Problema é uma das maiores preocupações do MPT

A Procuradoria Regional do Trabalho (PRT) em Alagoas registrou, no período de janeiro de 2017 até fevereiro de 2018, 14 procedimentos relacionados à saúde mental no trabalho. As denúncias envolvem os segmentos de telemarketing, comércio (supermercados), bancos, comércio (loja de departamento) e transporte de valores.

Procurador do Trabalho, Rodrigo Alencar, diz que adoecimento mental é uma das maiores preocupações do MPT

FOTO: ASSESSORIA PRT/AL

A quantidade de denúncias que chegam ao Ministério Público do Trabalho (MPT) pode parecer pequena, mas o adoecimento mental é uma das maiores preocupações da atualidade da procuradoria. O assunto, de acordo com o procurador do Trabalho, Rodrigo Alencar, tem sido bastante debatido na Coordenadoria Nacional de Defesa do Meio Ambiente de Trabalho (Codemat) e alvo da atuação do MPT, por meio de termos de compromisso e ações civis públicas contra empresas de telemarketing e bancos, principalmente.

Sobre as metas das empresas impostas aos funcionários, o procurador avalia que algumas se tornam inapropriadas quando são demasiadamente altas a ponto de comprometer a saúde mental do trabalhador. Estabelecer metas não é ilegal, na avaliação dele, mas é preciso analisar se as metas são atingíveis dentro de uma jornada normal de trabalho.

“Em Alagoas, como em todo o país, o avanço de casos de adoecimento mental no trabalho, é flagrante e há várias maneiras de conter este avanço, tanto através de uma atuação preventiva (entrevistas, seminários, onde discutimos o tema) bem como pela atuação repressiva (investigando e combatendo os abusos que chegam ao nosso conhecimento)”, ressalta.

Segundo ele, a PRT/AL tem atuado para dar visibilidade ao problema. “Há diversas campanhas no MPT  chamando a atenção para o problema, a exemplo da campanha ‘Não se cale!’, que aborda a questão do assédio sexual, o qual, inegavelmente, causa sérios transtorno à saúde do trabalhador”, conclui.

Perícia avalia condição psicológica no ambiente de trabalho

Fechar o laudo de doença mental não é tarefa fácil e condicionar o seu aparecimento ao ambiente de trabalho se torna um diagnóstico ainda mais complicado. É comum a Justiça do Trabalho pedir, além dos pareceres médicos e resultados de exames comprobatórios, uma perícia que avaliará as condições psicológicas do trabalhador. Em Alagoas, o procedimento está sendo feito rotineiramente e os laudos expedidos são acostados aos processos, subsidiando as decisões dos juízes.

Metas inapropriadas e impostas pelas empresas podem causar transtornos mentais nos trabalhadores

FOTO: DIVULGAÇÃO

A psicóloga Marli Falcão Batista dos Santos é perita judicial e trabalha para o TRT. Ela confirma que as avaliações a serem feitas com pessoas relatando terem adoecido mentalmente por causa do trabalho aumentam a cada ano.

Os principais problemas relatados são ansiedade extrema, estresse pós-traumático (causado por assaltos, acidentes), Síndrome do Pânico, depressão e fobias. Boa parte destas doenças, de acordo com a profissional, está diretamente ligada à pressão sofrida pelo funcionário por parte das empresas.

Para emitir uma opinião acerca da condição do paciente (trabalhador), ela segue alguns parâmetros técnicos convencionais da Psicologia. Faz uma entrevista para ter conhecimento do fato e descobrir quais os meios de interação desta pessoa com o serviço, o histórico de patologias, de transtornos anteriores e o motivo de afastamento pelo INSS.

Ela adianta que são muitos os casos em que os trabalhadores adoecem mentalmente durante a atividade laboral e os principais fatores são os estresses pós-traumáticos e as pressões psicológicas impostas pelas empresas.

“O parecer é apenas mais uma opinião com base na documentação apresentada pelo trabalhador e pela entrevista concedida durante a perícia. O juiz sempre me dá um prazo de trinta dias para que o laudo seja expedido”, explica Marli Falcão.

A psicóloga diz que as metas impostas pelos empregadores aos funcionários causam adoecimento mental pela cobrança externa e interna. O trabalhador se sente tão pressionado que não consegue dar conta do serviço e acaba adoecendo. “Sem falar que algumas metas são estabelecidas e, antes mesmo de elas serem cumpridas, a empresa já estipula outras”.

Ela pediu para que as pessoas fiquem atentas a alguns sinais de que a mente não está bem: sono comprometido ou exagerado, esquecimento, pensamentos desconexos, ações iniciadas sem conclusão ou desenvolvidas de maneira errada, dores de cabeça, pesadelos, insônia e falta de apetite. Se estes problemas surgirem, o conselho é buscar ajuda de um profissional médico e psicólogo para avaliação mais precisa.

Fiscalização constata jornada excessiva e metas inatingíveis

Alex Oliveira, auditor-fiscal, diz que combate às metas abusivas são um grande desafio

FOTO: GAZETAWEB/ARQUIVO

O excesso de jornada, que reflete diretamente no adoecimento mental, tem sido atributo observado constantemente na fiscalização das empresas. Em Alagoas, a ação é executada pelos auditores-fiscais do Trabalho.

No planejamento destas atividades, o Ministério do Trabalho resolveu alterar, em 2018, a nomenclatura da análise de acidentes do trabalho para análise de acidentes e doenças do trabalho. A mudança, embora nominal, é considerada bastante significativa para quem atua no dia a dia com estas fiscalizações.

“É uma evolução de postura e teremos reflexo nas nossas atividades”, compreende chefe substituto da Seção de Inspeção do Trabalho da Superintendência Regional do Trabalho em Alagoas, Alex Alexandre de Oliveira.

Ele concorda que metas inatingíveis, restrições exageradas de ações, falta de reconhecimento dos esforços no trabalho, além do clima ruim entre os próprios empregados, são alguns fatores de adoecimento mental. A opinião dele fundamenta-se no cotidiano visto nas empresas que os auditores fiscalizam.

Segundo Alex, este mal precisa combatido pela própria fiscalização, mas a falta de informação e o subjetivismo para análise das causas deste adoecimento são fatores contrários da mesma maneira.

“O interessante para os empresários é que este acompanhamento e diagnóstico da área de saúde pode contribuir para ter trabalhadores mais satisfeitos, normalmente com reflexos em redução de afastamentos, maior qualidade e produtividade no trabalho. Os patrões deveriam ver a melhoria das condições gerais de trabalho como algo bom para seus negócios, e não uma obrigação legal”, aconselha.

O auditor-fiscal explica que caso haja afastamento por doença relacionada ao trabalho, pode haver enquadramento em irregularidades perante a Norma Regulamentadora 7 (NR-7), que trata do Programa de Controle Médico e Saúde Ocupacional  – PCMSO. Nele está previsto exame médico ocupacional, avaliação clínica, abrangendo até teste físico e mental.

“Vejo como importante, aí, o acompanhamento do sindicato da categoria profissional, atuando em diversas instâncias, inclusive com uma demanda à nossa Superintendência Regional do Trabalho, caso verifique correlação entre a atividade laboral e a doença”, avalia.

*Os nomes dos entrevistados que relataram o drama que viveram no ambiente de trabalho foram alterados a pedido deles, que preferiram não se identificar.

FONTE: TV GAZETA DE ALAGOAS




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